Quando o passado nos assola

Eu não acho, não. Não acho mesmo. Que sou, sabe? Uma pessoa que vive de passado. Em geral eu toco o barco. Devagarinho, mas vou indo: hora remando, hora deixando a correnteza me levar.

Mas hoje foi impossível. Sim. Hoje. Hoje mesmo. Dia seis de janeiro de dois mil e dezessete   dei altas braçadas para trás, contra qualquer correnteza e com uma força que eu nem sabia que existia. Rá!

Veja, a minha mãe se mudou. Há quase seis meses. E ainda tem coisas dela lá na casa em que ela morava. E não tem apenas COISAS DELA. Tem coisas minhas, um carrinho de bebê, uma flauta transversal, toda a papelada das três faculdades que eu inventei de começar. Por que, né? Xérox é uma coisa de DEUS.

Achei 7 fitas K7, veja você. Eu nem tenho ONDE tocar essas sete fitas K7. Achei um disquete, colorido – ia até guardar – mas acho que foi para o lixo no meio das minhas memórias confusas, enquanto eu tentava juntar mais de vinte anos numa caixa velha sem nenhum senso cronológico.

Entre TCCs, papéis de carta, extratos bancários e holleriths dos meus primeiros empregos, encontrei uma carta escrita há dezessete anos pelo meu querido amigo de infância.  Naquela época ele estava no Canadá e me escreveu se torturando com as dúvidas da adolescência. Hoje ele está casado muito-bem-obrigada, com dois filhos e morando no interior. Tudo parece tão bem resolvido. É o nosso final-feliz, será? É assim que a vida termina?

Não deu.

É tão normal as mães conseguirem guardar num lugarzinho ou outro as coisas preciosas dos filhos, não é? Aquelas coisas todas que a gente vai guardando antes de sair de casa, casar, sei lá.

O que a gente faz com tantas lembranças? Com tanta história? Com tanto tesouro?

Coloquei uma caixa em cada braço, lotadas de papéis, fotografias, canivetes e radinhos de pilha quebrados. Agarrei toda a memória que eu consegui levar comigo quando saí do apartamento.

Agora, uma parte preciosa dos meus 33 anos está na mesa da minha sala de jantar.

_______

Lulups tá transbordando de passado. E sim: tá tocando “Sobre o tempo” do Pato Fu no Spotify.

 

 

 

 

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