{O tempo e o vento} Parte I – O Continente – Vol. 1


Eu li “Ana Terra” quando tinha uns treze ou quatorze anos, para escola. Lembro de ter ficado chocada com a vida da personagem, nascida em Sorocaba – SP e criada em uma estância perdida no Continente de São Pedro, hoje Rio Grande do Sul.

Naquele tempo da Ana Terra, nos idos do século XVIII, o Sul do Brasil não tinha fronteiras demarcadas e a briga era sempre por terras, riquezas, gado – poucos – e escravos – escassos. As famílias conseguiam cartas de sesmaria a muito custo e só produzindo muitos herdeiros se conseguia vingar nessa terra de ningúem, repleta de saques, injustiças e trabalho duro. A luta era contra tudo e todos: índios, castelhanos, portugues, espanhóis, bandeirantes vincentinos e lagunenses.

Bom. Ana Terra me marcou definitivamente: uma personagem forte, calada e determinada a sobreviver. Uma heroína.

Com a intenção de ler a obra toda, comprei há alguns meses a primeira parte da saga “O tempo e o vento”, do escritor gaúcho Érico Veríssimo. Essa primeira parte é denominada “O Continente” e é dividida em dois volumes. No primeiro volume está a incrível história da Ana terra e do Capitão Rodrigo.

Há três semanas, a Tatiana Feltrin, do Tiny Little Things, anunciou que ia fazer uma maratona de “o Tempo e o vento”, propondo a leitura de 150 páginas por semana, com o objetivo de terminar a obra toda – são sete volumes – até o natal e ir comentando as passagens do texto a cada semana (às sextas-feiras).

Fiquei feliz e encarei. Hoje terminei o primeiro volume de “O continente” e já assisti os três vídeos que a Tatiana colocou lá no canal dela no Youtube. É gostoso ler com mais pessoas, participar de uma espécie de “clube de leitura” virtual, mesmo que a discussão não flua tão naturalmente.

E fiquei com vontade de registar aqui as minhas impressões dessa obra tão cara à história brasileira.

Tentando não entregar nenhuma parte do romance, é importante destacar o brilhantismo do escritor. Érico se dedicou à saga de “O tempo e o vento” durante quinze anos e com toda a certeza mergulhou em densas pesquisas dos fatos históricos que marcaram a região e o Brasil.

“O continente” tem início em 1895, durante uma das últimas guerras civis que teve palco no Rio Grande do Sul. Entretanto, já no segundo capítulo da obra, o narrador volta a história até 1745.

E, se não bastasse intercalar passado e presente, Érico também introduz trechos narrativos – destacados em itálico – que trazem apanhados de informações relevantes mas que não pertencem a nenhum momento específico da saga, mas sim às entrelinhas do romante.

***** **** **** **** a partir daqui, o texto pode conter spoilers ***** **** **** ****

O Sobrado

O sobrado é o nosso tempo presente. Nele se refugiam os descendentes de Ana Terra comandados por Licurgo Terra Cambará. É esse o nosso primeiro contato com essa gente bruta, já em pé de guerra.

Se o tom dos homens dessa história é dado por Licurgo, corajoso e teimoso, a linhagem feminina é anunciada por Maria Valéria Terra, sua prima, que suprime as emoções e revela-se uma rocha em tempos de dificuldade.

A Fonte

A fonte é o trecho da história em que tudo se principia. O personagem principal aqui é um missionário espanhol, Padre Afonzo, que vê nascer em seu povoado o pequeno Pedro.

Nascido órfão de mãe índia e de pai desconhecido, Pedrinho é criado por um casal de índios catequizados, habitantes daquela missão e acompanhado de perto por Pe. Afonzo.

Pedrinho ainda garoto já demonstra ares  misteriosos e místicos. Fruto da mistura de missionários e indígenas, tem muita imaginação e confunde os mitos da terra com os ensinamentos católicos.

No estouro de uma das diversas guerras que assolam o continente, Pedrinho foge aos 11 anos das missões.

Ana Terra

A família de Ana Terra veio de São Paulo para ocupar uma estância no continente de São Pedro. Ela e a mãe trabalham duro para ajudar o pai, Maneco Terra, e os irmãos, Antônio e Horário, a prosperarem nesse descampado em que eles fazem roça e almejam alcançar melhor fortuna.

É no pé de um riacho que Ana Terra e Pedrinho, agora adulto, se encontram pela primeira vez.

Pedro lutou em diversas guerras, de diversos lados, e encontra afinal refúgio na estância dos Terra e no coração de Ana.

É aqui que Ana Terra começa a revelar-se uma mulher forte e detentora do sangue teimoso, calado e desconfiado dos Terra. Ao perder tantos entes queridos, Ana ainda tem sede de vida e abandona a estância da família para ir tocar a vida nas terras do coronel Ricardo Amaral, para os lados de Santa Fé.

É lá que cria o seu filho, Pedro Terra, e passa a desempenhar papel importante no povoado e na nova família que passa a criar.

Durante o capítulo sobre Ana Terra, o desenrolar do romance entre Ana e Pedro é muito bem desenhado. Pedro é meio índio, fala de forma acastelhanada, detém estórias místicas e conta causos. Ao mesmo tempo tem conhecimento dos ritos católicos, é bom caçador, bom agricultor e é bicho do mato.

Pedro missioneiro é uma figura linda do romance e é compreensível que Ana Terra o ame e o odeie ao mesmo tempo e nunca mais consiga esquecê-lo.

Um certo capitão Rodrigo

Capitão Rodrigo aparece no novo povoado de Ana Terra depois que essa já é falecida. Seu primeiro contato é com Juvenal Terra, filho de Pedro Terra.

Rodrigo Severo Cambará é um personagem cativante mas “impossível”, usando as palavras do vigário da região, o Padre Lara.

Ateu, sangue quente, saído de diversas guerras, Capitão Rodrigo resolve se fixar em Santa Fé. Coloca seus olhos gulosos sobre Bibiana, filha de Pedro Terra. Este, homem trabalhador que é, não aprova o forasteiro.

O trecho do romance em que conhecemos capitão Rodrigo é intenso. Ao mesmo tempo em que torcemos pelo capitão, nos descabelamos por Bibiana que, depois de casada, leva uma vida triste e difícil.

Seguindo os passos da avó, Bibiana Terra ama apenas esse homem, apesar de todas as patifarias de que ele é capaz. Mais uma vez, como uma mulher Terra, Bibiana tem sede pela vida, quer criar seus filhos e viver. Ignora o sofrimento físico e toca muito bem a vida sem um homem, se assim tiver de ser. Mas guarda na lembrança o tempo em que o amor lhe foi possível e bom.

Fim do Volume I – O Sobrado

O primeiro volume do “O Continente” termina nos tempos do sobrado. A guerrilha continua e a família Terra ainda está sitiada no casarão, sofrendo a escassez imposta pela situação.

Passaram-se menos de 24 horas e a essa gente já foi imposta a morte, a sede e a fome.

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Estou iniciando o segundo volume, em que vamos conhecer novos personagens e tomar contato com outros mencionados apenas de relance até aqui.

Se você tem a intenção de ler a saga, ainda dá tempo de acompanhar!

Na semana que vem a Tatiana vai comentar o fim do primeiro volume e talvez o início do próximo.

E eu, venho aqui, dar as minhas impressões também.

Até!

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Lulups vai entendendo melhor essa história toda dos gaúchos, tchê.

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