Uber Crush

Ela dá três batidinhas no vidro. Ele abaixa meia janela.

[Passageira] Oi!

[Motorista] Oi. Marisa?

[Passageira, já entrando no banco de trás] Isso. Olavo?

[Motorista] É isso aí.

Marisa se acomoda. Olavo dá a partida. Os dois se olham pelo retrovisor.

[Marisa] Ei, olha. Desculpa perguntar, mas… a gente já se pegou?

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Todo mundo pegando muito uber por aí, minha gente?

 

 

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Solidão.

Tem um livro aqui que estou lendo. Estou na penúltima página. Desde ontem.

Não quero terminar.

Não quero terminar para não me sentir sozinha.

Não quero.

Não quero me sentir sozinha.

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Lulups acha que os livros fazem companhia. Não sou a única, eu sei.

Nota sobre bebedouros

Nesses tempos de economizar dinheiro, evito comprar bebidas nas vendas por aí. Mas está calor (não tá?) e a sede aparece. Eu sempre deixo a garrafinha d’água porque esqueço, porque aquece, porque pesa na bolsa.

Mas.

Existem os abençoados bebedouros nessa vida. De água fresca e com gosto bom.

Quando eu era xóvem achava bebedouro uma coisa assim meio nojenta. Você não? As pessoas bebiam e cuspiam e os cabelos caiam no ralo e tinha gente que abocanhava a saída de água. Eca!

Mas não me importo mais.

Atualmente acho os bebedouros uma bênção. Bên-ção, entendeu?

Você não acha, não?

É a fonte mais perfeita de água fresca em SP. Tem gosto melhor que água de garrafa. É de graça. Muitas vezes é gelada. Dispensa copos, canecas e afins.

Deveria ter bebedouro em todos os lugares do mundo.

#maisbebedourosporaí

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Lulups está pensando em começar uma campanha… hmm…

Maria Clara.

Revira a noite toda. Há dias. É uma insônia que não passa, uma dor no corpo, mas em nenhum lugar específico. É coisa de cabeça, dizem. Vai passar, dizem outros. Sempre passa, ela sabe.

Coloca a mão no ventre e acaricia a barriga. O polegar perto do umbigo, por cima da camisola.  Passeia com a mão pelo seu corpo, ali, naquele espaço, em busca da quentura de seu colo. Abre os olhos na noite e observa o corpo deitado na escuridão. Sente o lençol e depois as próprias mãos num passeio da madrugada. Suas unhas roçam a pele e tudo para na noite que já é tão quieta. “Maria Clara”.

Corta o pensamento com uma navalha.

É tudo tão absurdo. É tudo tão impossível. É tudo tão só completamente desejo nos últimos tempos que nem sabe como todos esses equívocos foram parar ali dentro, dentro dela, dentro do seu corpo, conversando com as suas mãos em todas as noites, pulsando.

Não pode.

Não pode agora. Não pôde antes. Talvez nunca possa.

Tem nome. Por que, diabos, tem um nome? Essa criatura esculpida em pura vontade que parece ser só sua. Quando é. Porque às vezes nem é.

É um anjo que sopra seu nome pelo céu. É loucura. É energia que pede para descarregar. Há meses. Anos, talvez. Mas está trancafiada lá dentro, no mais profundo do seu ventre. Porque sozinha não pode. Porque sozinha não quer. Porque sozinha prefere não ter ninguém.

Exceto.

Quando acaricia o próprio ventre e tem certeza que ela vem.

Maria Clara.

 

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Lulups traz uma reflexão: Em “A Louca da Casa”, livro da Rosa Monteiro que fala sobre criatividade, imaginação, loucura e escrita, ela cita Julian Barnes no último capítulo, de número dezenove: “Os romancistas não escrevem sobre seus assuntos, mas em torno deles.“. Em seguida, ela diz o seguinte:  “… para complicar ainda mais as coisas, muitos leitores caem no equivoco de acreditar que o que estão lendo realmente aconteceu com o romancista.”

Estou tentando voltar a escrever. Mas o que eu escrevo, não sou eu. Está em torno de mim. 🙂

Sexta-feira, 13.

Saindo do Sesc Santo Amaro uma garoa pinta a rua toda de um chumbo cintilante. As gotas d’água dançam na luz amarelada dos postes do Largo 13 enquanto estudantes da Uninove se aboletam no bar e vão contabilizando as unidades de cerveja em frente à faculdade. É sexta-feira.

Muitas barracas de todas as comidas soltam fumaça na noite fresca: yakissoba, milho verde, churros, pipoca, churrasco, acarajé. É janta.

Achei que sairia do show para uma noite de ar mais quente e limpo, como a de ainda ontem. Mas, não. O dia fechou e a noite escondeu a lua cheia.

Subindo a rua de casa, ainda seca – parece que o chuvisco ficou só ali no Largo 13, uma estação do metrô atrás – a noite abriu um pouco e deu para ver as nuvens dançando em volta da lua. Agora, na minha cama, já vejo o chuvisco que pegou o trem e deu para aguar a luz antiga dos postes do mercado.

Quis escrever. Sobre nada. Não quero escrever sobre nada, especificamente. Só quero descrever a noite. A chuva fina e gelada contra a luz quente e amarela. A lua tão cheia e tão branca cercada por nuvens pretas. A fumaça dos carrinhos e das barracas de comida avançando por cima das cabeças, abraçando a escuridão. Passos aflitos e risadas. Música de longe.

É uma noite de sexta-feira. Só isso.

 

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Lulups sente sono cedo e sempre está em casa quando é noite. Mas gosta de olhar que a vida acontece também no escuro.