Fragmentos

Zapeando filmes e séries para assistir. Não encontra nada. “O que quer ver?”, pergunta para si mesma. O que eu quero ver, o que eu quero ver… Tanto tempo livre, dá até para ver filmes na tevê. O que eu quero ver… ? O que eu quero fazer? Talvez ela quisesse mesmo era estar fazendo um jantar para uma família, sua família. A família que ela não tem. Que ela não fez. Que ela desmanchou.

Pedaços de gente. Relacionamentos difíceis. Parece impossível ter uma pessoa inteira para te acompanhar na jornada. Afeto. Pedaços de conversas. Troca intelectual. Será que o caminho é compartimentar relações?  Com um você faz sexo, com outro janta fora, mais um para passeios de domingo e outro para apresentar para família e comemorar o natal. Será que não dá para encontrar tudo que precisamos numa pessoa só?

Deixei de tomar café na mesa da cozinha. Ficou só impossível, não consigo sentar sozinha nela. Não enxergo o jornal apoiado na torradeira porque o olho enche d’água. É melhor assim, está melhor assim, mas não consigo mais ler as notícias na mesa da cozinha. Boto tudo numa bandeja e levo para sala. Pelo menos voltei a fazer café. Nos primeiros trinta dias só tomava solúvel. Eu não conseguia nem encostar na cafeteira.

Mas é melhor assim, está melhor assim. Pelo menos a gente para de chorar todos os dias.

Outro dia abri o seu armário, que está tão vazio agora. Tinha um pedaço de um pijama meu, apoiado na sua prateleira. Parece que as roupas vão se espalhando, que eu vou me espalhando para ocupar os espaços que foram ficando vazios. A mesa da sala está cheia de livros. (Sempre esteve?). A pia do banheiro está mais vazia. Tem dias que nem piso na sala da tevê, que era território seu.

Eu pensei que a gente ia ficar velhinho junto. Eu pensei. Às vezes eu deitava no seu peito e me apavorava sozinha com a ideia de que você fosse embora desse mundo antes de mim. O que eu ia fazer num mundo sem você? Era tão inconcebível.

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Me lembro de uma conversa no final de 2018. Pensava comigo: seu não ficar casada com ele, nunca mais quero me casar. Será que eu nunca mais vou me casar? Será que um dia eu vou querer me casar de novo? Será que a gente não vai mais se casar?

E o leite? Tem sobrado. Nem sei mais o que fazer. Toda semana preciso refazer o cálculo da entrega. Para não faltar, nem para sobrar. Perdi o ritmo. A gente ia no mercado toda semana. Tem vezes que passam dias e dias e eu nem lembro que preciso fazer compras. Cozinhei muito nas primeiras semanas. Há dias eu simplesmente parei.

 

Uber Crush

Ela dá três batidinhas no vidro. Ele abaixa meia janela.

[Passageira] Oi!

[Motorista] Oi. Marisa?

[Passageira, já entrando no banco de trás] Isso. Olavo?

[Motorista] É isso aí.

Marisa se acomoda. Olavo dá a partida. Os dois se olham pelo retrovisor.

[Marisa] Ei, olha. Desculpa perguntar, mas… a gente já se pegou?

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Todo mundo pegando muito uber por aí, minha gente?

 

 

Solidão.

Tem um livro aqui que estou lendo. Estou na penúltima página. Desde ontem.

Não quero terminar.

Não quero terminar para não me sentir sozinha.

Não quero.

Não quero me sentir sozinha.

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Lulups acha que os livros fazem companhia. Não sou a única, eu sei.

Nota sobre bebedouros

Nesses tempos de economizar dinheiro, evito comprar bebidas nas vendas por aí. Mas está calor (não tá?) e a sede aparece. Eu sempre deixo a garrafinha d’água porque esqueço, porque aquece, porque pesa na bolsa.

Mas.

Existem os abençoados bebedouros nessa vida. De água fresca e com gosto bom.

Quando eu era xóvem achava bebedouro uma coisa assim meio nojenta. Você não? As pessoas bebiam e cuspiam e os cabelos caiam no ralo e tinha gente que abocanhava a saída de água. Eca!

Mas não me importo mais.

Atualmente acho os bebedouros uma bênção. Bên-ção, entendeu?

Você não acha, não?

É a fonte mais perfeita de água fresca em SP. Tem gosto melhor que água de garrafa. É de graça. Muitas vezes é gelada. Dispensa copos, canecas e afins.

Deveria ter bebedouro em todos os lugares do mundo.

#maisbebedourosporaí

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Lulups está pensando em começar uma campanha… hmm…

Maria Clara.

Revira a noite toda. Há dias. É uma insônia que não passa, uma dor no corpo, mas em nenhum lugar específico. É coisa de cabeça, dizem. Vai passar, dizem outros. Sempre passa, ela sabe.

Coloca a mão no ventre e acaricia a barriga. O polegar perto do umbigo, por cima da camisola.  Passeia com a mão pelo seu corpo, ali, naquele espaço, em busca da quentura de seu colo. Abre os olhos na noite e observa o corpo deitado na escuridão. Sente o lençol e depois as próprias mãos num passeio da madrugada. Suas unhas roçam a pele e tudo para na noite que já é tão quieta. “Maria Clara”.

Corta o pensamento com uma navalha.

É tudo tão absurdo. É tudo tão impossível. É tudo tão só completamente desejo nos últimos tempos que nem sabe como todos esses equívocos foram parar ali dentro, dentro dela, dentro do seu corpo, conversando com as suas mãos em todas as noites, pulsando.

Não pode.

Não pode agora. Não pôde antes. Talvez nunca possa.

Tem nome. Por que, diabos, tem um nome? Essa criatura esculpida em pura vontade que parece ser só sua. Quando é. Porque às vezes nem é.

É um anjo que sopra seu nome pelo céu. É loucura. É energia que pede para descarregar. Há meses. Anos, talvez. Mas está trancafiada lá dentro, no mais profundo do seu ventre. Porque sozinha não pode. Porque sozinha não quer. Porque sozinha prefere não ter ninguém.

Exceto.

Quando acaricia o próprio ventre e tem certeza que ela vem.

Maria Clara.

 

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Lulups traz uma reflexão: Em “A Louca da Casa”, livro da Rosa Monteiro que fala sobre criatividade, imaginação, loucura e escrita, ela cita Julian Barnes no último capítulo, de número dezenove: “Os romancistas não escrevem sobre seus assuntos, mas em torno deles.“. Em seguida, ela diz o seguinte:  “… para complicar ainda mais as coisas, muitos leitores caem no equivoco de acreditar que o que estão lendo realmente aconteceu com o romancista.”

Estou tentando voltar a escrever. Mas o que eu escrevo, não sou eu. Está em torno de mim. 🙂